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DNa, 31 de Março de 2001 Ficção VODKA MAÇÃ Bué do virtual. Pedro e os seus amigos vivem entre o sonho e o desalento, entre o real e o faz-de-conta, entre um permanente bem-estar e dúvidas sobre o sentido de toda a coisa. São apontamentos, crónicas, instantâneos sobre uma geração que ganhou a afluência mas ainda não tem resposta para todas as perguntas TEXTO DE JOSÉ VAZ PEREIRA Finais de milénio – quer o coloquemos em 2000 ou 2001 – trazem sempre, ao lado da mensagem optimista que se costuma traduzir no estafado cliché do “alvorecer de uma nova era”, presságios de catástrofe, de incidências de desgraça e do aparecimento de algo de indesejável. Como foi o caso, afinal não verificado, do “bug” informático do ano 2000 que iria parar o mundo. O mesmo se diga de quando surge, no horizonte, o fim de mais 100 anos de vida e evolução humanas. Como nota o historiador Hillel Schwartz no seu livro “Finais de Século, lenda, mito e história de 990 ao ano 2000” (Divulgação Cultural, 1992): “Os finais do século são conclusões tão antecipadas que, quando passam, olhamos para trás e para eles com tristeza e alívio: tristeza pelos momentos de inquietude e pelos sonhos momentaneamente libertos; alívio porque os apocalipses (os desastres e as revelações) foram, afinal, menores e acessíveis”. Pedro Sapo e os seus amigos, uma juventude sem problemas, festejam a passagem do ano de 2000 para 2001 numa casa com piscina perto de Lisboa, sem Anticristo à vista numa data carregada de emoção. Pedro (Sapo é alcunha) conserva hábitos das modas antigas. Cinco minutos antes das doze badaladas telefona aos pais, à irmã, ao cunhado e aos sobrinhos a desejar “feliz ano novo!”. Está, confessa, a ficar sentimentalóide. Tem 28 anos e mede 1 metro e 95, altura de jogador de basquetebol. Possui gravador de chamadas e um aquário com 10 peixes vermelhos e um preto. As raparigas procuram-no por razões físicas e ele dá-lhes metafísica (Pedro é professor de semiótica). Elas exageram nos seus transportes, lembrando ao assediado as chamadas de valor acrescentado género “0641 Me Liga Vai”. Sapo sobrevive, o pai parece um intelectual dos anos 60 e até fuma cachimbo. O rapaz com alcunha de batráquio balança entre Marta e Sónia. É um indeciso, talvez goste das duas. O fim do ano, com a malta na piscina aquecida, terminou em glória. Pensavam mesmo que nem “Marés Vivas” (a famigerada série televisiva “Baywatch”) iria acabar. Na realidade não vai acontecer assim, a produção já fechou a torneira. Mas podem sempre aparecer por aí, é fatal como o destino, episódios antigos. Mas o mais interessante não é o fim do ano. O que cativa mais é precisamente o que acontece antes: as polaroids da vida frenética e desestabilizada de Pedro. Mesmo quando pensa em afundar-se finalmente num sofá e não pensar em mais nada, acontece sempre qualquer coisa. Patrícia Madeira tem um modo divertido de escrever, onde mistura humor, malícia e cumplicidade. “2001, Instantâneos de Sapo” é a sua estreia na ficção. Ela sabe acompanhar as aventuras-desventuras de Pedro e desenha para lá de um grupo, intolerável como quase todos os grupos, figuras que surpreendem pela autenticidade e pela rapidez com que são rubricadas. Mas não há só desenho caprichoso de personagens. Há também neste livro nunca tão optimista como deixa transparecer, um sentido muito agudo de época. Veja-se a viagem e a estada em Nova Iorque no meio de batalhões de anti-fumadores e o remate de um engarrafamento de trânsito que torna o ar irrespirável na metrópole anti-tabagística. Repare-se ainda como, através de uma personagem, se pode dar uma época, talvez mesmo uma sociedade inteira. É o retrato do pai de Pedro: “Desde a reforma que ele não conhece outro divertimento senão a televisão. Vê até ao final da emissão. Faz um zap contínuo entre os canais. Vê o noticiário da noite inúmeras vezes em inúmeros canais. O meu pai criou raízes no sofá, quase não sai de cima dele e a barriga não perdoa. Crise dos 60. A minha mãe já inventou reuniões de beneficiência, só para não se dar conta que anda carente e irritadiça. Apetece-lhe partir a televisão – quando não passam telenovelas -, chama-lhe a amante do meu pai. Se, realmente, assim fosse, a televisão tinha que se contentar com uma relação de voyeurismo por parte do meu pai” (pág. 13). Que fará Pedro com a idade do pai? Estiolar diante da televisão, nunca. A ideia é fartar-se de viajar. Mas, sinais de perigo, há viagens e viagens. Partiu numa excursão em que, no meio de outros rapazes e raparigas, ele ia “solto”. Para as grandes capitais da antiga Áustria-Hungria: Viena, Praga e Budapeste. Só que, à noite, todos os seus companheiros davam sinais de cansaço e recolhiam aos quartos do hotel muito cedo, embora depois Pedro ouvisse lá dentro sinais óbvios de actividade. Não querendo tornar-se “écouteur”, passeou sozinho à noite, conheceu locais e pessoas. Começou em má onda mas acabou a ganhar cultura. Mas os tais instantâneos do Sapo são muito marcados por estas crises que terminam em bem-estar ainda que fugaz. Ou por bem-estar que termina em crise: Pedro tomava banho de espuma, essência de eucalipto, música ambiente e tudo, quando a campainha tocou, quando não é a porta, é o telefone. A fantasia insinuou-lhe que podia ser Sónia. A realidade revelou-lhe uma senhora, testemunha de Jeová, e a parte dura começou aí. John Carey escreveu no seu prefácio de “Pure Pleasure” (Penguin Books, 2000): “Ponha o seu livro de lado e ligue a TV e a sensação de descontracção é imediata. Isso deve-se a grande parte do seu espírito ter parado de trabalhar”. Numa primeira leitura, “2001, Instantâneos de Sapo” é concebido para ser divertido, estamos num mundo sem complexos de culpa mas o relógio tic-tac do pensamento e até mesmo da dúvida não param por causa disso. Pedro, Marta, Sónia, o bando todo, vivem num universo onde o dinheiro não é problema, a liberdade foi conquistada pelos papás, os consumos estão aí. Onde também dá a impressão que basta premir o botão de “rewind” na realidade (como nos vídeo-gravadores) para baralhar afectos e tornar a dar, “pode fazer-se um pouco de tudo e a qualquer hora” menos ao domingo, há estímulos, vibrações, “fast fuck”, desculpem o meu francês, vodka maçã e tolerância infinita. Mas arranhe-se esta superfície e pode surgir outra luz: revejam-se os instantâneos de D. Adosinda e o episódio da Ervanária. Afinal, no meio de tanta euforia, há gente a despedir-se. Mas dir-se-ia que o mundo de Pedro está sempre pronto para a reconstrução, quando a “pet-shop-woman”, uma quarentona lindíssima com quem ele gostaria de dar uma curva, lhe estende o cartão com o número do telemóvel, “o senhor pode querer comprar mais iguanas”, a vida volta a sorrir. Se se lê essa coisa desactualizada que são os livros porque nos dão prazer, se é esse o critério, então “2001, Instantâneos de Sapo” é o pecado óbvio que responde à chamada. Notícias Magazine, 6 de Maio de 2001 Depois de Amanhã Espaço para artistas que vão dar que falar. Num futuro próximo Texto de Rui Pedro Tendinha PATRÍCIA MADEIRA A GANHAR CORPO Dizer que nasceu uma nova escritora é o mais comum dos disparates dos clichés. Ao seu lado no rol de tonterias está também o sublinhar que se trata de um “jovem” e de sexo feminino. Porém, são precisamente essas as marcas com que Patrícia Madeira se tem debatido neste arranque da sua carreira literária. Ela não gosta. Talvez se fosse “tia” e tivesse uma escrita mais popular, os clichés fossem outros. Aos 29 anos, acaba de editar o seu primeiro livro , 2001 – Instantâneos de Sapo, um retrato de um rapaz dos nossos dias, solteiro e disponível. Um livro pop, com sexo, universos noctívagos e escrito na pessoa masculina. E é também um livro com música. Sem CD incorporado, mas sempre com banda sonora bem assinalada, onde cabem Ella Fitzgerald, Chris Isaak e Morphine.Posto isto, poder-se-á pensar em escrita para jovens. Pode-se, sim, senhor, mas é a própria escritora que tem consciência que essa interpretação é redutora. Ao primeiro encontro com a sua escrita, qualquer leitor unissexo depara com um estilo seguro, casual e não necessariamente geracional. O herói da ficção é um jovem urbano, professor de Semiótica e mulherengo com propensão misógina. Muitos rapazes de cidades como o Porto ou Lisboa são capazes de se identificar com o estilo de vida deste Sapo. Curiosamente, também a escritora remete para o seu universo pessoal a inspiração deste primeiro livro, ela que nasceu em Coimbra, viveu no Porto e é agora alfacinha estabelecida. Apesar de estar sempre a escrever – pequenos contos e outras coisas – no seu caderninho, nos tempos não livres, Patrícia Madeira ganha a vida em publicidade. É criativa de uma agência multinacional. É óbvio que, se pudesse, apenas escrevia. Escrevia e ia ao cinema, a sua outra paixão. Ao mesmo tempo, garante a pés juntos que a publicitária tem a mesma personalidade que a escritora, apesar de ter uma relação amor-ódio com a publicidade. Com a literatura desfaz-se mesmo em amores. Por isso, sonha em editar mais, aesar de estar bem consciente que não edita para ganhar dinheiro. Escreve para ser feliz. Talvez por isso tenha ficado também feliz quando foi “tentada” por duas editoras. Acabou por escolher a Oficina do Livro, já a pensar na agressividade comercial desta. Agora, está a receber um bom feedback dos leitores e a saborear o seu livro pronto e nas bancas. “Quando entro numa livraria e vejo nas prateleiras o meu livro a sensação é muito boa, mas ainda foi melhor quando soube que iria ter um editor a apostar nesse projecto, neste caso dois. Foi muito interessante não estar a escrever para a gaveta”. Na gaveta ficam apenas os textos da classe Diário de adolescente e letras para eventuais canções de Marco Paulo, juntamente com Nick Cave, uma das “pancadas” de Patrícia. Para trás estão os seus tempos de adolescente em Coimbra, onde um curso de actriz no CITAC e um outro de escrita criativa a marcaram até hoje. Nesse curso de escrita criativa chegou a escrever uma peça de teatro, coisa que quer repetir um dia destes. De preferência, mais a sério. Mas se lhe pedirmos para definir a sua escrita, responde: “É só urbana. Urbana e unissexo. Contudo, têm-me dito que o livro tem muitas expressões populares e de aldeia.” Antes de chegar aos trinta anos, Patrícia Madeira continua sem saber se tem uma vocação definida. Por isso, escreve. E diz que escreve por instinto e que está preparada para todos os tipos de reacções. “Tenho de gerir as opiniões negativas. Até já disseram que era um livro descartável. É bom que haja opiniões negativas, significa que as coisas estão a ganhar corpo”, refere. Falem dela. Bem ou mal, mas falem. Só não lhe peçam é para assinar o livro. É alérgica a autógrafos. Onde é que vai estar daqui a cinco anos? A escrever e com mais dois livros publicados. Sem Nobel. |
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