“Chamo-me Sapo. Quer dizer, o meu nome não é bem Sapo. É uma alcunha que já me acompanha há bastante tempo, talvez desde a Escola Primária, se não estou em erro. Bem, não tenho nada a ver com um sapo, pelo menos fisicamente. Tenho uma pele lisa, nada rugosa. Também não é verde. Tenho 1,95? 1,93? Acho que 1,95. É que cada vez que tiro o bilhete de identidade tiram-me 2 cm de altura. Se eu aceitasse esta "desmedição" contínua, mediria por esta altura 1,50. Seria um autêntico cagatacos. E eu gosto de ter a altura que tenho. Se fosse baixo, não me importava de ser baixo, mas como sou alto importo-me se não o sou "realmente"…Bom, adiante. As raparigas ficam desesperadas quando sabem que me chamo Sapo. Tentam logo dar-me um atendimento personalizado, do género posso tratar-te pelo primeiro nome, isto é, se o tens? Pedro? Pedro Sapo? Oh, que giro. Pelo menos é original. Mas prefiro Pedro. Como queiram meus pares de presuntos. Algumas usam tanta base na cara que parecem um frango tostado com pele luzidia e gordurosa. E depois abanam-se. Caem para cima de mim como gatas com o cio. Imitam as vozes lânguidas das telefonistas de telemarketing. Simulam orgasmos tal qual uma linha de valor acrescentado. 0641 Me Liga Vai.”
“Estou a dar uma aula. A cadeira é interessante, pelo menos para mim. Foi-me difícil acordar, tive um sonho muy atormentador. Pergunto a uma aluna, distinga-me símbolo de ícone, exemplifique, ela responde-me qualquer coisa, quer dizer, eu sinto que o que ela me está a dizer está correcto, mas só sinto, porque estou longe. Bastante longe, até. Vagabundeio na minha memória para me lembrar do sonho e, ao mesmo tempo, dou a aula em sistema de piloto-automático, facto que requer uma certa perícia. A dada altura, encontro-o, visualizo-o intensamente, estou apaixonado por uma mulher mas só nos amamos por correspondência. Ela vive em Palm Springs, já não me lembro como é que nos conhecemos. Sei que fazemos amor por correspondência, mas por que raio? Todas as semanas vou ao apartado buscar uma encomenda dela, uma encomenda não muito volumosa. Símbolo? É um sinal que representa ou substitui outra coisa. Chego a casa, aliás uma casa estranhíssima, com cortinas luxuriantes vermelhas, chão de mosaicos com efeitos op-arte, estendo-me no chão, dou três cambalhotas, rodo o pescoço como se fizesse exercícios de aquecimento e começo a abrir a encomenda. Lá de dentro salta uma vagina. Persegue-me. O que é quer dizer com isso, Sôtor? O clitóris, erecto - seria possível um mais erecto? -, roça-me no nariz. Os pequenos lábios entreabrem-se. Não resisto, sugo-os suavemente. Um sexo feminino vindo de Palm Springs por correspondência, mas por que fui eu sonhar uma coisa destas? O quê, Sôtor? Ao penetrar na vagina por correio, vejo o pénis do outro lado. No transparente e no vácuo. Cabecinha do útero nem vê-la. Faço amor no infinito com uma vagina por correspondência. Estou quase lá, do outro lado do arco-íris, como dizia a Lula do Wild at heart, prestes a atingir... ... ... É uma espécie de signo, não é? ... ... ... Sôtor ... ... ... Sôtor! ... ... ... ATINJO-O... Quer que eu repita?”
|