"Gaspar. É este o nome que mais tenho escrito no meu caderno de apontamentos. Tem um som bonito, quase como um refrão agradável, termina em par - uma associação positiva - e faz-me lembrar nome de gato. Gaspar, Gato, Gato Gaspar. Um gato que, se existisse, seria pachorrento, teria olhos grandes e ternos e bigodes farfalhudos. Seria longo e preto e gostaria de miar no telhado, com uma lua como cenário. Gaspar. Um nome breve e gracioso de se desenhar, que começa numa letra arredondada, orgânica, e termina noutra mais aberta e flexível, deixando a minha imaginação fluir."
"Gostava de me lembrar mais da minha infância. Da minha infância mais recuada. Não consigo. Não, não é das viagens que gostava de me lembrar, era, isso sim, da sensação de nascer e de estar dentro da minha mãe. É impressionante como permaneci lá o período mais confortável da minha vida e não me lembro de um único momento. Nem do nascimento sequer. Às vezes esforço-me, principalmente antes de dormir, mentalizo-me que tenho de me lembrar, peço ao meu inconsciente para me permitir aceder a esses dados, mas nada, ainda não me deu qualquer tipo de resposta. Pergunto-me, aliás, se alguma vez o fará. Provavelmente nunca me vai dar acesso a essa parte de mim mesma. Penso que se está nas tintas para mim. Que se está a borrifar para as minhas memórias. Confesso que fico um pouco frustrada. Sou-me uma estranha.
"Olho-me insistentemente ao espelho. Serei feia ou bonita? Não conto o tempo que me olho, é imensurável. Agora sou feia, descobri uma borbulha, se bem que ínfima e provavelmente só passível de ser observada através de lupa, mas que é, em todo o caso, uma borbulha. Ali, à distância de um palmo, detecto um ponto negro, bem no centro da testa. Talvez tenha descoberto o meu terceiro olho, caso acreditasse numa visão holística, o que está fora de hipótese. É unicamente um ponto negro. Pequeno, mínimo, ínfimo, mas que, seja como for, não deixa de ser um ponto negro. Feio, de ponta arredondada e preta. Concentro-me agora nos antípodas, nos meus pés cor-de-rosa, gorduchos como leitões. Os dedos formam o nariz de um reco, grunhem e fazem abanar a cauda, situada no calcanhar, por reflexo condicionado. Ronc, ronc, fazem enquanto lhes acaricio a penugem rosa imaginária. "
"Porque é que tem de ser assim?, continuo. Porque é que estou dentro de mim mas não estou? Serei mesmo real? Terei corpo? É mesmo meu? E se eu não quiser? E se quiser continuar a viver num estado de semi-sono, desprendida da consciência de mim? As palavras viajam pelo escuro, como se fossem projectadas pelos meus olhos e existissem para além da minha existência. Tornou-se tudo tão real. Se existo, vou morrer. E se eu não quiser morrer? Talvez não esteja viva, talvez esteja morta e esta cama não passe de uma ilusão. Se me tocar, será que me consigo sentir? Se me sentir é porque existo? Se existo, tenho de deixar de existir? Quando é que desaparece uma pessoa? E se eu não quiser morrer?, paira sobre a minha cabeça, como um néon fosforescente. Aninha-se sobre o meu crânio como um halo. Eu não quero. As palavras são pesadas, fazendo-me frágil, etérea, feita de poalha. Respiro em soluços, doridos, pesados. Não quero. Acabei de dizer isso ou foi impressão minha? "
"Não conto as vezes em que o meu cérebro se põe a entoar melodias, como uma jukebox. Ora uma cantata de Bach ou uma música foleira, género a da Barbie e do Ken, ou o último êxito da época (tocado repetida e obsessivamente nas rádios, como se o álbum só fosse constituído por esse tema), ora a primeira música que ouço nesse dia (geralmente canções foleiras com refrãos populares, daqueles que se agarram à cabeça como caramelos aos dentes), ou então - é inevitável - as melopeias pegajosas de Richard Clayderman. É entrar numa loja, num elevador ou numa casa de banho pública, e lá está! Richard Clayderman, o Deus da música enlatada, omnipresente. "
"Talvez tenha sido o choro ou a estranheza de ver a porta do meu quarto fechada, não sei. Na altura, não conseguia dormir completamente fechada no meu quarto. Parecia que estava num armário, enclausurada entre tábuas de madeira e roupas velhas. Roupas acumuladas durante décadas, um relicário de épocas, vestidos de folhos, écharpes garridas, calças à boca de sino, camisolas interiores masculinas de 1930 e sapatos de gansters pretos e brancos com buraquinhos. Asfixio. Sufoco contra a almofada, contra a camisa de linho rendilhada às bolinhas de 1940."
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